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Blog da Fran - A vida pelos meus olhos



CONTO

Por culpa do brilhante Lelec, um adorável mineiro-parisiense (http://aterceiramargemdosena.blogspot.com/) que foi abençoado pelo dom da escrita, resolvi exercitar meu lado romancista-amadora no conto abaixo...  

 

A latinha de balas de anis Flavigny

 

 

Foi em busca de um sopro de vida que Sandrine de Fleur cruzou, numa tarde chuvosa e triste de Paris, os portões do Cemitério do Père-Lachaise. Enquanto a maioria dos transeuntes só enxergava a morte do lado dentro, a jovem de choro compulsivo e dor no coração via no cenário repleto de arte tumular a esperança de, um dia, encontrar o sentido da vida. Saudável por fora, mas moribunda por dentro, Sandrine iniciava ali um dos rituais mais dolorosos de sua jovem história. Ela estava psicologicamente pronta para enterrar o seu pequeno grande tesouro - uma latinha de balas de anis de L'Abbaye de Flavigny. Dentro do objeto que ainda emanava o cheiro do anis repousava a foto 3x4 e a aliança com o nome do homem que, um dia, a fez acreditar que o amor também era para ela.

 

Pelos bosques do cemitério, ela caminhou com o rosto molhado. Seu choro descontrolado se confundia com a água da chuva e seus soluços misturavam-se aos trovões. Ela não se importava com os outros. O fato de estar em um cemitério a beneficiava. Afinal, quem estranharia uma moça chorando em plena mansão dos mortos? Depois de muito procurar, Sandrine retornou à mesma rua e quadra que havia pisado anos antes – o túmulo da mãe de um escritor famoso, outrora usado por ele para pedir sua amada em casamento. Tudo sob a tutela da alma materna. Foi lá também que, dois anos antes, o antigo amado de Sandrine fez o pedido de casamento que nunca se consumaria.

 

A falta de amor e de coragem do homem estraçalharam com os sonhos de Sandrine. À beira da morta psicológica, emocional e também física, ela só tinha uma atitude a tomar: enterrar o passado, seus sentimentos, suas memórias, o resquício do amor longínquo. Em um breve e silencioso ritual, ela repousou a latinha de balas Flavigny em cima do túmulo. Ao passo que seu olhar se desviou do casal desenhado na tampa da latinha, Sandrine virou-se em direção à saída do cemitério. Foi embora de luto pelo falecido ainda vivo.



Escrito por Françoise Terzian ?s 02h20
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